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Comunicação Olinda 08/08/2003 - 16:00 |
A Rabeca do Salu
Nayara Oliveira
Um pequeno violino de quatro cordas de tripa, tocado na altura do coração encanta o mundo nas mãos de um pernambucano arrebatado de animação. O instrumento é a rabeca e quem o conduz é uma autoridade em cultura popular, Mestre Salustiano.
Músico e instrumentista autodidata, Manuel Soares Salustiano, conhecido como Mestre Salu, é hoje uma das figuras olindenses de maior destaque nacional e internacional. Apaixonado por música e manifestações da terra, Salu ajuda a manter vivos os folguedos da Zona da Mata, como o coco, a ciranda, o maracatu, o forró pé-de-serra, o aboio de vaquejada, o cavalo-marinho, o frevo, o mamulengo e o caboclinho.
Nascido e criado na Zona da Mata, o rabequeiro é ex-cortador de cana-de-açúcar e nativo da cidade de Aliança. Veio ao mundo em 1945 e passou uma infância difícil no campo, trabalhando no canavial para ajudar a sustentar os seis irmãos. Conheceu as manifestações populares aos sete anos através do pai, João Salustiano, que o levou para brincar de Cavalo Marinho, em Nazaré da Mata. A partir daí, não deixou de interagir com qualquer expressão que identificasse suas raízes. Com 16 anos, apaixonou-se pela rabeca e aprendeu a tocar. Integrou maracatus e passou toda a juventude entre os passos das danças da terra.
Com a certeza do bom trabalho que desenvolvia, decidiu conquistar o mundo saindo da cidade. Com 19 anos, mudou-se para Olinda por acreditar que o município oferecia oportunidades para as manifestações populares. Ganhou espaço e hoje, com 57 anos, é referência para os novos artista do estado e conquista seguidores ensinando a sua arte.
Em 1977, fundou em sua casa o Maracatu Piaba de Ouro, um dos mais renomados maracatus rurais de Pernambuco. No começo, a agremiação era composta por 27 componentes, hoje, depois de 26 anos, o “Piaba de Ouro” encanta a todos por onde passa com mais de 320 brincantes, entre adultos e crianças.
Mestre Salu deseja que seu trabalho tenha continuidade, por isso transfere para seus descendentes tudo que sabe sobre cultura popular. Pai de 15 filhos, Salu acredita que a participação deles em suas apresentações enriquece a harmonia do espetáculo.
Reconhecido como um dos grandes mestres da cultura popular, Salu recebeu, em 1982, da Universidade Federal de Pernambuco o título de Doutor Honoris Causa. A nomeação é oferecida às personalidades do estado que tenham se destacado pelo saber ou pela atuação em prol das artes. Já em 2001, adquiriu, das mãos do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a medalha de Honra ao Mérito Cultural Brasileiro.
Além da música e da dança, a política também fez parte da história desse rabequeiro de Aliança. Em 1988, foi convidado para ser assessor especial da presidente da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), Leda Alves. Já em 94, Ariano Suassuna, então secretário estadual de Cultura, o chamou para também ocupar o cargo de assessor especial. A política não encantava Salu, mas ele a utilizava para disseminar as festanças populares.
Como a arte e a dança participam diretamente de sua vida, Salu precisou transformar sua casa em um verdadeiro refúgio para as expressões culturais. Em Olinda, ele criou dois espaços reservados para divulgar e fortalecer os folguedos populares, o Ilumiara Zumbi e a Casa da Rabeca.
O Ilumiara é um espaço em praça pública que tem como principais manifestações, o Encontro de Cavalo Marinho, no dia de Natal, e o Encontro de Maracatus, no carnaval. No período carnavalesco o local recebe a maior concentração de maracatus do mundo, com 87 agremiações.
A mais recente conquista de Mestre Salu foi erguer a Casa da Rabeca, um espaço de apresentações de forró, maracatu e outras expressões da cultura popular pernambucana. Além de arrastar uns passos de dança, o público que comparece pode saborear o típico cardápio da gastronomia nordestina. O sucesso do local foi tão grande que com um pouco mais de um ano de inaugurada, a Casa da Rabeca já reuniu, no São João, um público de duas a três mil pessoas por dia. Média, que, no ano passado, ficou em torno de 300 participantes.
Mas Salu não pretende deixar o trabalho fincado em sua terra, por isso já rodou o Brasil e o mundo para divulgar a riqueza dos traços populares nordestinos. Com o espetáculo “O Sonho da Rabeca” e o Maracatu Piaba de Ouro, Salu já participou de festivais em quase todos os estados brasileiros e no exterior. Chegou a levar o espetáculo, em 2001, para o Rock in Rio e se apresentou com diversos artistas nacionais e internacionais.
Recentemente, viajou para a França onde participou do 17º Festival de Montpellier - Printemps des Comédiens. De lá seguiu para Nova York para se apresentar no Lincoln Center. Essa não foi a primeira vez que Mestre Salu saiu do Brasil. Em 1997, o rabequeiro passou 17 dias em Cuba, para participar de um festival cultural.
Nas apresentações, Mestre Salustiano desenvolve um empolgante repertório e encanta o público com muita ciranda, coco gingado, frevo e maracatu. Salu canta versos, toca rabeca e conduz o espetáculo como se o público estivesse em uma festa no interior de Pernambuco ou nas ladeiras da Cidade Alta de Olinda.
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