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15/08/2003 - 12:00

Tereza Costa Rêgo quadro a quadro

Joana Rozowykwiat

Passarinho

Tereza Costa Rêgo nasceu no Recife, mas adotou Olinda. Além de morar na cidade, ela pinta o cenário que vê da sua janela, na Rua do Amparo, e dos muitos recantos da Cidade Alta. Filha de uma família tradicional da aristocracia rural, teve educação rígida e repressora. Era a única menina, entre seus quatro irmãos. Mas aprendeu a ser forte e independente. Rebelou-se contra o estigma de “bonequinha que enfeita o piano na sala de visitas” e, hoje, coloca pra fora, por meio de sua arte, tudo que guardava calada.

Começou a pintar ainda criança e ingressou na Escola de Belas Artes aos 15 anos. Ficou casada por 14 anos e teve duas filhas. Durante este período, começou a trabalhar melhor sua relação com o pincel e ganhou três prêmios do Museu do Estado e outro da Sociedade de Arte Moderna. A liberdade que não chegara a ter em casa, colocava em suas telas. Em 1962, realizou a primeira grande exposição, na Editora Nacional.

No mesmo ano, Tereza envolveu-se com Diógenes Arruda, dirigente do Partido Comunista. Começou um romance arrebatador, que a levou a fugir da cidade, deixando para trás o casamento falido. Era tempo de tradicionalismos e formalidades. Recife era regida por convenções, e mulher que largava marido não merecia perdão.

Em São Paulo, por motivos políticos, viveu na clandestinidade até 1969, quando seu companheiro foi preso. Até então, Tereza não podia trabalhar. Aproveitou para estudar. Formou-se em História, na USP. Foi uma época de muita angústia. Diógenes foi torturado e a todo instante chegavam notícias aterradoras. Depois passou a dar aulas de História para vestibulandos e a trabalhar como paisagista em um escritório de planejamento. Enfim, em 1972, Arruda foi libertado. O casal seguiu, então, exilado para o Chile. Não tardou, no entanto, a chegada do Golpe, que obrigou Diógenes, novamente, a se mudar.

Tereza e seu companheiro foram para Paris, onde passaram seis anos. Afastada das filhas, dos irmãos, a artista abandonou um pouco a própria vida, para ser a mulher do líder comunista. Mas em momento algum parou de pintar. Expôs seus quadros, assinando com o nome de Joanna. Fez doutorado em História, na Escola de Altos Estudos da Sorbone. Sua tese de conclusão relatava a história do proletariado brasileiro.

De volta ao Brasil, em 1979, Tereza sonhava reconstruir sua vida. Mas, depois de tantas tristezas, torturas, exilado de sua Nação, Diógenes não resistiu à chegada. Morreu de ataque cardíaco, deixando Tereza sem chão. Era preciso resgatar o que havia ficado para trás e decidir, então, seu destino. O acaso já havia resolvido coisas demais. Passara muito tempo vivendo a história de outras pessoas. Tereza trataria, agora, de escrever, em tintas, a sua.

Firmou-se como artista plástica de destaque em Pernambuco. Comprou uma casa em Olinda, onde mora e pinta. Fez mestrado em História na UFPE e começou a trabalhar na Prefeitura de Olinda. Foi diretora do Museu Regional e, por 12 anos, do Museu do Estado. Fez várias exposições, no Estado e fora dele, exprimindo suas idéias em muito vermelho.

Recentemente, inaugurou uma nova mostra, chamada O Imaginário do Bordel - O Parto do Porto, reunindo 40 obras que tratam de forma poética da vida noturna no Bairro do Recife, na década de 50. Depois de três anos sem expor, a artista fez, agora, uma espécie de retrospectiva de seu trabalho. Pinturas de várias épocas e estágios foram reunidas sob um mesmo tema, comprovando o interesse recorrente de Tereza pelas mulheres, marinheiros, cais e cabarés do Recife Velho.

De acordo com Raimundo Carrero, que escreve um dos textos de seu catálogo, os trabalhos da artista são sempre desenvolvidos sob um olhar crítico. As imagens não são tratadas de forma meramente plástica ou informativa.


 
   
 
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