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29/08/2003 - 14:33

Ataíde: personalidade olindense fantasiada de folião

Ana Paula Gomeze

Passarinho

“Fim do carnavalesco”

Nesta tumba negra que a todo mundo espanta
Jaz um ser contrito com a festa da carne
Partindo deixou saudade
Pra nunca mais viver
Já não existe vida
Só o ar impuro que desta tumba negra exala
Param os choros
Param os soluços
Param as saudades
E tudo cala.

Parece triste, mas o epitáfio (inscrição tumular) é proferido com a irreverência e a alegria de um folião apaixonado pelo carnaval e pela cultura popular da cidade de Olinda. O jornalista, poeta e compositor José Ataíde de Melo preparou a poesia não para se despedir da vida, mas dos carnavais. Ele é uma mistura de personalidade olindense que marcou a história da cidade, com o simples folião que todos os anos mistura-se aos demais amigos da folia, nos quatro dias da festa de momo.

Amante do carnaval de Olinda sempre foi, mas passou a promovê-lo quando começou a trabalhar na Assessoria de Imprensa da Prefeitura, em 1969. A explosão da festa de momo da cidade aconteceu por volta de 1977 e ele já estava lá para noticiar tudo. Passou por ele a divulgação dos trabalhos de personalidades como Silvio Botelho e Mestre Salustiano.

Sua paixão por Olinda e seu Carnaval lhe rendeu um extenso currículo de ações em prol da preservação da cultura popular da cidade. É o autor do livro Olinda Carnaval e Povo, resultado de quatro anos de pesquisa. O livro foi publicado em 1982 e editado pelo Centro de Preservação do Sítio Histórico de Olinda. É considerado um dos mais importantes documentos sobre a história do carnaval de Olinda. Teve a edição esgotada e lhe rendeu o suficiente para comprar uma casa.

Participou da mostra do Carnaval de Olinda da CTI-NE (Comissão Integrada do Turismo do Nordeste), realizada em 1983, em Belo Horizonte. Em 1990 criou o projeto Apito do Frevo com a intenção de resgatar o bloco de pau e corda e ampliar a participação das comunidades carentes no Carnaval da cidade. Desse projeto, Ataíde fundou um dos mais saudosos blocos do carnaval olindense, o Cantolinda, em 1992.

Incansável e movido pela preservação cultural, em 1994, Ataíde juntamente com o cantor Serginho de Olinda, deu inicio a outro projeto, o Marcafrevo. Dessa vez, para divulgar e preservar a música e os ritmos pernambucanos, como coco-de-roda, maracatu, frevo e ciranda.

Por tudo isso, também em 1994, foi o homenageado do Carnaval do município. Com 173 votos, ganhou a disputa para Jubal Caldas (do Pitombeiras), Ismar Colombo (do Homem da meia noite), Teodomiro Pereira (Fundador do Flor da Lira) e Izaías Pereira (Bacalhau do batata).

Em 1995, o trabalho de Ataíde ultrapassou as fronteiras do país. Ele organizou uma oficina de introdução aos ritmos pernambucanos para um grupo de alunos da mais importante escola de música do mundo, o conservatório de Rotterdam. Na época, quem entregou o certificado foi o ministro da Cultura Francisco Welfort.

Desde então, vem sendo um nome requisitado para proferir palestras, participar de documentários, como foi o caso do produzido por Homero Fonseca, intitulado 40 Dias. Recentemente foi convidado para fazer uma poesia que integrou a tese de doutorado de um arquiteto da Universidade de Lisboa, sobre os quintais e cercas conventuais.

“A quinta do Carmo”

Com vista para o mar
e para a imponência do recolhimento Carmelita
Ninguém acredita que ali naquela Quinta
Um senhorio abastado e nobre
a escolheu para morar
Cercado pela frente com jardim florido todo ano
Pelos lados com latadas e parreira
E logo atrás no topo da ladeira
Com suntuoso convento franciscano.

Atualmente vem desenvolvendo um trabalho de educação cultural promovendo oficinas pedagógica-cultural-popular sobre o coco de roda para estudantes. Dirige um grupo musical Canta Olinda composto por 15 pessoas e é presidente da Associação Carnavalesca desde o ano passado.


O POETA E COMPOSITOR

Ataíde já perdeu as contas das poesias e músicas que compôs. Vez por outra recita um poema e cita com satisfação algumas músicas que fez para homenageados do carnaval de Olinda. Entre elas, Exaltação a Clídio Nigro, homenageado em 1983. Telerecado para Julião das Mascaras, homenageado de 1993 e Um Frevo para Ismar Colombo, homenageado de 1998, feitas em parceria com Alex Melo.

Tem músicas de Ataíde gravadas em CDs como o Canta Pernambuco, de Luciano Padilha, Liberdade de Expressão, de Serginho de Olinda, O Tema é Frevo - pesquisa, gravado pelo CEMCAPE - Centro de Música Carnavalesca de Pernambuco e no LP Carnaval de Vitória - música Cantolinda (com participação do coral Coral Cantolinda e Banda de Frevo do NE).

Ataíde tem em seu currículo também passagem nas profissões de sapateiro, ajudante de padeiro e ajudante de mecânico o que revela uma juventude difícil, da qual ele se orgulha de ter vencido com honestidade e garra. Com 11 anos já sustentava a família composta pela mãe e irmã. O pai não conheceu. Conta que era marinheiro e foi para o Rio de Janeiro.

Nasceu em Olinda, mas com 6 meses de vida foi morar na Paraíba, onde viveu até os 11 anos. Com o falecimento do avô retornou com a mãe e a irmã à cidade Patrimônio Histórico da Humanidade, para recomeçar a vida. “Não tinha mais sentido continuar lá sem o patriarca da família”. Para Ataíde esse foi um dos momentos mais difíceis de sua vida. Veio morar num lugar que ainda não tinha luz, nem água, “tinha muito mosquito” e foi preciso começar a trabalhar.

A primeira profissão foi de sapateiro, numa fábrica de calçados populares. Orgulha-se de lembrar que haviam 10 sapateiros e ele era o que mais produzia. A explicação para a façanha era que os sapateiros não trabalhavam nas segundas-feiras. Paravam para beber. Como ele era menor, não bebia e passava o dia adiantando o serviço. Isso garantia um rendimento maior.

Viveu na Ilha do Maruim por 46 anos. Foi lá que passou sua juventude, frustrações e conquistas. Em 1968 fundou um jornal de bairro, chamado Mocidade Alegre. Na época, uma pesquisa constatou que diariamente o jornal vendia 200 exemplares enquanto outros jornais vendiam apenas cinco nos dias de semana e 15 nos finais de semana. Por causa do Mocidade Alegre Ataíde passou a se interessar pelo jornalismo.

Entrou na Prefeitura de Olinda em 1960. Para explicar como foi esse momento ele cita um trecho da poesia “O abilolado” do poeta paraibano Chico Pedrosa. “Conheci a cidade quando votei para prefeito/por sinal foi eleito/e pra minha felicidade/ me deu um emprego de guarda/ me forneceu uma farda/um capote e um coturno/ um cacete envernizado/um apito enferrujado/e eu fui ser guarda noturno”.

Desde sua entrada na PMO passou por vários setores até chegar a assessoria de imprensa. De lá conseguiu ser correspondente do Jornal do Commercio, o que lhe favoreceu para ser registrado como jornalista em 1968.

Só saiu da prefeitura em 1972, quando foi convidado para ser diretor de administração e obras da prefeitura de Glória do Goitá, onde permaneceu por dois anos. Na ocasião Ataíde compôs o hino oficial e participou com Ariano Suassuna, na época diretor de extensão cultural da UFPE, da criação da bandeira da cidade.
A saudade bateu e voltou para Olinda em 1974. Para isso mais uma poesia:

“Confrontações de Olinda”

Olinda, pela frente beija o mar
De águas ás vezes azuis, ás vezes cinza, às vezes clara
Pela direita, com a primogênita Recife
Que despeja sobre a mãe capital nômades sedentos de cultura e da destruição
Pela esquerda, com a filha caçula Paulista a cada passo para o afago maternal
Olinda rejuvenesce como a dança dos tempos
No Varadouro, com a relíquia do minueto
No Farol, como calor do charleston
No Bairro Novo, com repique saudoso dos baiões dos anos 50
Em Casa Caiada misturan-se rock, fanks e lambadas
A cidade quase que renasce
Pelos fundos, sepultar seus mortos e acalanta o choro das misérias nas favelas e continua a vidas nas desesperadas esperanças
Olinda, somos nós!


 
   
 
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