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Comunicação Olinda 10/10/2003 - 11:20 |
Um roteiro sobre a vida do cineasta Lula Gonzaga
Lícia Magna
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Pouco a pouco Olinda vai se transformando em um Cineclube graças à determinação do cineasta Lula Gonzaga que, ao longo da sua história vem lutando para que as pessoas possam desfrutar do mundo mágico das grandes telas. Para isso, o coordenador do projeto “Cinema na Praça” leva, todas as sextas-feiras, filmes e documentários às comunidades da cidade. Sua dedicação em preservar a Sétima Arte faz com que o cinema que ele divulga ultrapasse as ruas e se incorpore no coração das pessoas.
Nascido em Recife, no ano de 1951, Lula Gonzaga despertou o interesse pelo cinema ainda criança. Quando tinha dez anos, começou a freqüentar as matinês de domingo e a partir daí, não parou mais de se interessar pela arte cinematográfica. O universo das salas de exibição com suas cenas animadas passou a ser algo mágico e atraente para ele. Para assistir aos filmes desse mundo, o pequeno cinéfilo vendia seus gibis para comprar os ingressos.
Aos 19 anos estava decidido que iria trabalhar com cinema. Viajou de carona para o Rio de Janeiro em busca de seu sonho. Lá, bateu na porta de várias produtoras, mas não foi fácil. Passou três meses trabalhando como vendedor para poder sobreviver e só depois, conseguiu espaço na produtora francesa Persin Perrin.
Em cinema passou por todas as funções desde limpador de acetato, arte finalista, animador, motorista de carro, assistente de produção, cenografia até chegar a assistente de direção no Rio de Janeiro, em 79, com o filme “Maneco, o super tio”, produzido por Flávio Migliaccio. Trabalhou um ano e meio nesse longa demonstrando grande entusiasmo e talento para Sétima Arte.
Depois do pontapé inicial dado com o filme “Maneco, o super tio”, trabalhou na produção dos longas-metragens: Os Trapalhões nas minas do rei Salomão, Amor Bandido e O Guarani além de dez curtas. Nesse aprendizado com animação, desenvolveu, em 1979, um projeto de filmes sobre músicas nordestinas como Assum Preto e Jangadeiro. A idéia chegou a ser aprovada pela Empresa Brasileira de Filme - Embrafilme, mas por questões políticas, o projeto não foi concretizado.
Em 1973, recebeu prêmios nos festivais de cinema da Bahia e do Recife com o curta “Vendo Ouvindo” e anos depois, foi premiado com os curtas Asa Branca e Cotidiano, no festival do Rio de Janeiro.
Como no final da década de 70, o Brasil não possuía curso de especialização em cinema, ele viajou para Europa com o objetivo de expandir os seus conhecimentos na área. Passou um ano estudando na Iuguslávia, Croácia, República Tcheca e Roma e quando voltou, estava fervilhando de idéias para o mundo da animação.
Em 1985, ajudou a fortalecer o cinema em Olinda profissionalizando o amador Cine Bajado que funcionou até 1991 nos fundos do Clube Atlântico. O local abrigou discussões sobre cinema e política e mostras de filmes brasileiros, cubanos, franceses, soviéticos, entre outros. Funcionava diariamente e enquanto os cinemas comerciais só passavam matinês nas férias, o Cine Bajado exibia essas sessões durante todo ano.
Para sua tristeza, em 1992, a administração municipal da época decidiu transformar o Cine Olinda em um bar. Lula Gonzaga não se conformou e organizou um movimento na cidade chamado “Luta Olinda” em que sensibilizou pessoas do Movimento Cultural, várias personalidades e a população em geral para preservar o espaço. A pressão popular evitou a reforma no local.
Por divergências políticas, não continuou a trabalhar em Olinda, porém, o cinema continuou sendo o personagem principal da sua vida. Nos anos de 95 a 99, produziu juntamente com alunos das escolas públicas de Igarassu e Recife filmes de animação contando a história dessas cidades. Os estudantes ficaram empolgados e gratificados ao saber que os seus vídeos estavam sendo exibidos em telas de várias cidades do Brasil e do exterior.
Olinda só voltou a contar com o talento de Lula Gonzaga no início de 2001, quando ele sentiu que tinha “carta branca” para desenvolver suas idéias. Logo ao chegar, propôs o projeto Cinema na Praça que foi aprovado pela atual administração municipal e já é sucesso de público. O Cinema na Praça possui dois anos e conta com um público estimado em 500 pessoas por sessão.
Ao ver a alegria da população toda vez que o Cinema na Praça chega a uma comunidade, Lula Gonzaga não cansa de repetir que o povo gosta de cultura apenas não tem muitas oportunidades de entretenimento de qualidade. A proposta de exibição é basicamente de filmes nacionais.
O projeto está consolidado em Olinda e já vem percorrendo outras cidades em sessões extras. A arte do cinema viajou para Petrolina e Santa Maria da Boa Vista enchendo de emoção o mundo de várias crianças e adultos de acampamentos dos Sem-Terra que não conheciam a Sétima Arte. “É uma realidade distante que a gente possibilita levar a essas pessoas. É um momento em que elas se sentem entusiasmadas em fazer uma atividade cultural”, conta o cineasta. Ele está tentando viabilizar parcerias para expandir o projeto.
Outra antiga idéia de Lula Gonzaga ganhou forma e movimento, ano passado, nas comemorações dos 20 anos da cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. Para festejar a data, ele organizou a 1ª Mostra Iberoamericana de Cinema de Animação em Olinda. O evento reuniu filmes não só do Brasil, mas também de outros países. Entraram em cena mais de 50 trabalhos produzidos nos últimos anos, entre longas e curtas, nacionais e internacionais. Segundo ele, o encontro foi uma espécie de ponto de partida para algo maior: o festival de animação de 2004, que também será realizado na cidade.
A determinação do cineasta e a sua força de vontade em divulgar a cultura cinematográfica nacional ajudaram a Prefeitura de Olinda a receber, este ano, no Festival de Cinema de Recife, o prêmio de instituição que mais apoiou o cinema pernambucano. Os passos do cineasta também são visíveis no seu esforço pela reabertura do Cine Olinda, na Praça do Carmo, que estava abandonado há cerca de 30 anos e, atualmente, se encontra em reforma.
Recentemente, Lula Gonzaga comemorou mais uma vitória. O Ministério da Cultura aprovou o seu longa – metragem que é o desenho animado chamado “O príncipe Nassau no Brasil Holandês”. A idéia do cineasta é convidar alunos de escolas públicas para participar do filme como animadores e desenhistas. A perspectiva é de que a produção inicie ainda este ano. Sua paixão pelo cinema faz com que ele deixe o rastro de luta pela Sétima Arte por onde passa.
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