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Comunicação Olinda 15/04/2004 - 17:00 |
Um homem simples atrás de um balcão muito especial
Joana Rozowykwiat
Entre um balcão estiloso e toda a sorte de coisas possíveis de serem vendidas em uma mercearia, está o Véio, personagem famoso da Rua do Amparo, das tardes olindenses, querido entre boêmios, intelectuais e amantes da cerva gelada. Quem, na Cidade Patrimônio, nunca cruzou os portais da Bodega de Véio, em busca de uma lata de sardinha, 300g queijo coalho, sabão de coco, balde, cachaça ou dois dedos de prosa?
Edival Hermínio da Silva, 45 anos, casado, pai de quatro filhos. O Véio. Dono do tradicional secos e molhados Bodega de Véio, na Rua do Amparo, 212, aberta de domingo a domingo, desde 1981. Edival é um homem simples, vindo de Limoeiro em busca de um futuro melhor. “Minha família é de lá, mas eu nunca quis trabalhar com a enxada. Vim para Olinda em 76, trabalhar na mercearia de um tio.”
Só freqüentou a escola durante um ano de sua vida, o suficiente para aprender a ler, escrever e fazer conta. O tino para os negócios veio no sangue. “Meu avô era um negociante. Vendia e trocava boi como ninguém”, conta ele que, aos 10 anos, já comercializava bolo de goma para faturar uns trocados.
Em 1979, comprou uma bodega no Guadalupe. Trabalhou lá por dois anos, mas não deu certo. Sempre morando em Olinda, cidade que o acolheu desde o princípio, não desistiu. “Comprei essa casa aqui e, no início, era só uma mercearia comum. Eu não conhecia o povo, era travado, vindo do interior, sabe como é...”, diz. Vendia cerveja e cachaça, mas não para beber lá. Aos poucos, começou a servir os clientes mais chegados.
Quando os moradores da Rua do Amparo se reuniram, em 1998, para transformar o local em um pólo gastronômico, o Véio não se animou. O projeto envolvia o Sebrae, o Banco do Nordeste e os empreendedores da rua. “Era fantástico. O Banco financiaria o negócio de 14 pessoas. O Amparo ia se transformar num centro bem interessante, mas eu não estava interessado, tinha medo.” Com a insistência dos vizinhos, ele não teve dúvidas: “fui a Limoeiro consultar meu pai. Eu achava que ele ia ficar meio assim, mas ele deu permissão. Então resolvi entrar no projeto”.
Depois de uma reforma, a inauguração do pólo, com várias apresentações culturais, “uma festa só, um sucesso”. Desde então o local tornou-se mais movimentado. Com o terraço aberto com mesas e cadeiras, ficando aberto até mais tarde um pouco, a Bodega foi se firmando como ambiente eleito para todo happy hour e reduto da boemia olindense.
“A Bodega tornou-se o ponto de encontro das pessoas de Olinda, que gostam, vivem e discutem a cidade. Todas as classes sociais se reúnem lá. E só é assim porque reflete a personalidade do Véio. Ele trata bem, recebe com cortesia, educação, e a gente volta querendo discutir problemas e aspectos da cidade com pessoas diferentes da gente que estão sempre lá”, define Gilson Barbosa, procurador Geral do Município e assíduo freqüentador.
Segundo a prefeita Luciana Santos, “o Véio retrata a pureza da cidade. Ele comercializa produtos de primeira necessidade, lembrando as antigas mercearias do interior. É uma economia familiar que resgata em nós a sensação de viver numa cidade pequena, onde todos se conhecem”.
Dos empreendimentos da Rua do Amparo, apenas quatro sobreviveram. “Todo mundo achava que a Bodega era uma moda que ia passar. Mas estamos aí”, conta o Véio. O motivo de tanto sucesso ele atribui a Deus e ao seu trabalho. Mas a verdade é que o local e seu criador têm muitos outros encantos.
A Bodega de Véio é um espaço aberto para a cultura olindense. “Algumas pessoas vinham com o violão e ficavam tocando. A gente gostava. Afinal, a cidade tem esse talento para as artes”, comenta. A partir de então, foi virando um point para os artistas que se reuniam para discutir e criar a cena musical da cidade. Várias bandas cresceram com apoio do Véio. “Eu ajudo como posso, um dinheiro, uma garrafa de vinho, uma divulgação...”
“O Véio é um apaixonado pela cidade. Ele vive aspectos tradicionais da nossa cultura, encarna as procissões, faz parte das irmandades, reúne blocos de carnaval, incentiva as bandas”, enumera Luciana. A explicação é uma só: “Olinda é mágica. A gente se apega a ela, é como uma mãe. Eu cheguei aqui desgarrado, sem nada. Foi Olinda quem me recebeu. Aqui eu me firmei”, explica.
Hoje não tem quem não louve a importância do homem humilde, que conseguiu construir um lugar tão ímpar na cidade. “O Véio é um homem simples, sincero, lutador. Ficar batendo papo naquele balcão é o melhor”, conta o oficial de Justiça Cláudio Lapenda, que bate ponto no local, chegando até a dar uma mãozinha no atendimento em dias de muito movimento. “Eu vou todo dia quase. Conversar, degustar o tira-gosto que a gente inventa na hora. Junta uma sardinha com maionese, pede um salaminho e vai passando o tempo”, sugere.
A melhor definição para o Véio, é mesmo a de Gilson: “ele é do Bem”. Se está satisfeito? “Eu tinha vontade de vender de um tudo. Mas aqui não cabe”, comenta o Véio sem lamentar. “Eu não quero que a Bodega cresça mais não. Tenho medo que perca o encanto”. É um sábio.
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